Trump corta apoio a 700 jornais em 30 países (por Por Bárbara Reis)

Hoje, o New York Times começava assim uma notícia sobre o jornal russo Meduza, que opera no exílio: “Galina Timchenko, directora da redacção de investigação do Meduza, pensava que estava preparada para tudo. O site, sediado na Letónia e conhecido pelas suas reportagens destemidas sobre o regime de Vladimir V. Putin, tinha-se preparado para ciberataques, ameaças legais e até envenenamentos dos seus repórteres. Uma coisa que ela não tinha previsto: o fim do financiamento do governo dos EUA.”

O USAID, a agência estatal de apoio ao desenvolvimento internacional, e o Departamento de Estado norte-americano pagam 15% do orçamento anual do Meduza.

As projeções do gabinete do orçamento do Congresso norte-americano previam que este ano os EUA gastassem 58,4 mil milhões de dólares em programas de ajuda internacional.

Em 2024, esse dinheiro foi distribuído por nove categorias. A maior (20 mil milhões) foi para o “desenvolvimento econômico” e a menor (1,5 mil milhões) para a “educação e serviços sociais”.

Dentre os que receberam menos, estão as mídias, que fazem parte do pacote “democracia, direitos humanos e governação”, que recebeu 2,6 mil milhões.

Segundo os Repórteres Sem Fronteiras, em 2023, 268,4 milhões foram para as mídias. O New York Times diz que foram 180 milhões. Em qualquer dos casos, é uma gota do orçamento. Mas uma gota usada para apoiar “mídias independentes e o livre fluxo de informação” em 30 países onde há pouca ou nenhuma democracia.

Em concreto, o USAID, a agência estatal de apoio ao desenvolvimento internacional, financiou o trabalho de 6200 jornalistas, 710 jornais e 280 ONGs focadas em mídia.

São organizações de mídia independentes que operam em “condições repressivas” ou difíceis, como a Hungria, a Turquia e a Ucrânia, onde nove em cada dez jornais dependem de subsídios internacionais e vários já anunciaram a suspensão das atividades.

“É um verdadeiro banho de sangue”, disse ao New York Times Anya Schiffrin, professora catedrática da Universidade de Columbia, especializada em meios de comunicação internacionais sem fins lucrativos e em jornalismo de investigação. “Estes são os únicos jornalistas que estão a responsabilizar os governos em muitas partes do mundo e, sem o apoio dos EUA, não há muito mais dinheiro disponível.”

Elon Musk, a quem o Presidente dos EUA, Donald Trump, deu a tarefa de reduzir a despesa pública, diz que “o USAID é uma organização criminosa” e que “está na altura de morrer”.

Para baralhar e aumentar o caos, os dois têm-se entretido a espalhar mentiras sobre como o USAID usa o dinheiro para “comprar” notícias favoráveis ao Partido Democrata nas mídias que apoiam.

Há dias, Trump disse que descobriu que o governo paga milhões a jornais como o Politico e o New York Times e à agência de notícias Associated Press, e que esse seria “possivelmente o maior escândalo de sempre”.

Trump referia-se às assinaturas e licenças de uso de conteúdos, uma prática banal, como se estivesse a denunciar um negócio obscuro. O CEO e o diretor do Politico, Goli Sheikholeslami e John Harris, disseram que o jornal “não recebe subsídios do governo”. E explicaram: “Trata-se de uma transação – tal como o governo compra investigação, equipamento, software e relatórios industriais”, compra assinaturas e serviços ao Politico. “Sejamos claros: o Politico não depende financeiramente do governo, nem tem uma agenda oculta. Cobrimos a vida política e as políticas públicas – esse é o nosso trabalho.”

Um dos pacotes que vende por assinatura chama-se Politico Pro e promete dar “aos profissionais da política” as “ferramentas” para “antecipar, acompanhar e compreender a política na Europa”. Dizem ter mais de 1000 clientes.

Explica a AP, em tom pedagógico, que, tal como “os especialistas do Departamento dos Transportes seguem as publicações especializadas para conhecer as tendências do setor”, outros departamentos do governo americano seguem – e assinam – jornais para acompanharem a atualidade política e tomarem decisões sobre os muitos lugares do mundo onde os EUA têm interesses.

O New York Times também reagiu ao insulto de Trump e explicou que, no ano passado, recebeu dois milhões de dólares das assinaturas de diferentes departamentos do governo, as quais vende com desconto. Um dos acordos com preços baixos foi feito com os militares: mais de um milhão de militares no ativo e na reserva têm acesso ao Times.

E a porta-voz da AP, Lauren Easton, disse que “o governo dos EUA é cliente da AP há muito tempo – tanto nas administrações democratas como nas republicanas” – e paga assinaturas e licenças de uso, tal como “milhares de agências noticiosas e clientes em todo o mundo”. No fim, diz o que todos sabemos: “É bastante comum que os governos tenham contratos com agências noticiosas para terem acesso ao conteúdo.”

É tudo um absurdo, mas hoje vivemos num desconcertante, contínuo e crescente absurdo. E mal começou.

P.S. – Acabo de ler no X que Jeff Bezos, dono do Washington Post, definiu uma nova regra para as páginas de opinião do jornal. A partir de hoje, o jornal vai defender “as liberdades individuais e o mercado livre” e não serão publicados textos que contrariem estas ideias. Meu Deus. O editor de Opinião demitiu-se.

 

(Transcrito do PÚBLICO)

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