Morte do menino Ryan: Justiça arquiva processo que menciona Derrite

São Paulo — A Justiça arquivou, há menos de uma semana, um processo no qual o secretário da Segurança Pública (SSP) de São Paulo, Guilherme Derrite, e o comandante-geral da Polícia Militar, coronel Cássio Araújo Freitas, foram representados por abuso de autoridade.

Ambos foram mencionados em um ofício — encaminhado por deputados estaduais ao Ministério Público de São Paulo (MPSP) — sobre o caso durante o qual Ryan da Silva Andrade, de 4 anos, foi morto em uma ação da PM, no litoral paulista, em novembro do ano passado.

Como revelado pelo Metrópoles, laudo pericial concluído pela Polícia Técnico Científica de São Paulo constatou que foi o cabo Clovis Damasceno de Carvalho Junior, da Polícia Militar paulista, quem apertou o gatilho da arma de onde saiu o tiro que matou a criança, quando ela brincava na frente da casa de uma familiar em Santos.

O tiro que matou Ryan foi um dos 22 disparos dados, por sete PMs, em um suposto tiroteio com dois adolescentes, de 15 e 17 anos, que acabou causando a morte do mais velho. Foram 11 tiros de fuzil calibre 556, arma usada em guerras e três de calibre 12, a arma usada pelo cabo Clovi, segundo laudo pericial obtido pelo Metrópoles.

Responsabilidade pela conduta

Apesar de não estarem presentes na ação policial, Derrite e o coronel Cássio foram alvo do ofício parlamentar, no qual lhes era atribuída responsabilidade pela conduta dos PMs.

Após a morte da criança, ocorrida depois de uma cirurgia, como mostrado pelo Metrópoles, PMs teriam intimidado familiares e vizinhos de Ryan, em frente ao cemitério da Areia Branca, onde a vítima era sepultada em 7 de novembro. Esse episódio também é mencionado no ofício enviado à Promotoria, no qual foi acrescentado o fato de policiais terem bloqueado uma carreata que seguia para o enterro da criança.

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Policial militar observa movimento em praia do litoral paulista durante patrulhamento da Operação Verão

PMs em ação no litoral paulista
Policial do COE em ação no meio de região de mata no litoral de SP
Operação Escudo na Baixada Santista foi deflagrada após morte de PM da Rota
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PM com fuzil em favela da Baixada Santista

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Policial militar observa movimento em praia do litoral paulista durante patrulhamento da Operação Verão

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PMs em ação no litoral paulista

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Policial do COE em ação no meio de região de mata no litoral de SP

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Operação Escudo na Baixada Santista foi deflagrada após morte de PM da Rota

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Segundo a representação, Guilherme Derrite teria “minimizado” a situação, quando participou de uma sessão de prestação de contas na Assembleia Legislativa de São Paulo, em 6 de novembro, dia seguinte à morte de Ryan. Questionado sobre a ação da PM na cidade litorânea, o titular da Segurança Pública paulista afirmou que era feito “vitimismo barato” com a morte do garotinho.

Derrite também, segundo o ofício enviado ao MPSP, incitaria a tropa à animosidade, em decorrência de pronunciamentos, os quais trariam a sensação de impunidade a eventuais excessos e abusos. A letalidade da PM paulista cresceu 90% em 2024, o segundo da gestão do capitão da reserva Guilherme Derrite como secretário.

“Matei muito ladrão”

O próprio titular da SSP, em entrevista a um canal na internet, afirmou ter sido desligado da Rota por conta das muita mortes a ele atribuídas. “Matei muito ladrão”, disse na ocasião da entrevista, quando era deputado federal. Derrite já foi investigado por 16 homicídios.

A Promotoria desmembrou as denúncias dos parlamentares, pelo fato de Derrite e coronel Cássio contarem com forro privilegiado. O caso deles foi analisado pelo procurador da Justiça Sérgio Turra Sobrane, que sugeriu o arquivamento do caso.

Ele argumenta não ser possível atribuir a responsabilidade das ações ao secretário e ao comandante-geral, ponderando que, “caso surja algum elemento de prova” do eventual envolvimento deles, “evidentemente os fatos aqui poderão ser reavaliados”.

Criança de 4 anos morta teve pai, de muleta, fuzilado pela PM este ano

O posicionamento do procurador foi endossado pelo desembargador Figueiredo Gonçalves, no último dia 20, que arquivou o caso, em relação a Derrite e coronel Cássio.

À PM e Secretaria da Segurança Pública foram solicitadas atualizações sobre o caso, assim como eventuais posicionamentos relacionados ao arquivamento do processo envolvendo o secretário e o comandante-geral.

Em nota, a SSP afirmou que o laudo pericial, sobre a origem do disparo que matou Ryan, já foi concluído e anexado ao inquérito instaurado pela Polícia Civil, cuja conclusão depende de somente um depoimento. A ação dos PMs na ação também foi investigada por meio de um Inquérito Policial Militar, já concluído e enviado à Justiça Militar.

O arquivamento do processo envolvendo os chefes máximos da SSP e PM não foi comentado. O espaço segue aberto.

Pai e filho mortos

Ryan era filho de Leonel Andrade Santos, 36, morto cerca de nove meses antes, também pela PM, na mesma região na qual a criança foi mortalmente baleada.

Leonel foi morto em 9 de fevereiro do ano passado, na Rua São Mateus, Morro do São Bento, em Santos. No momento, ele estava acompanhado do amigo de infância Jefferson Ramos Miranda, 37. Na época, a reportagem esteve no local e conversou com familiares das vítimas.

Beatriz da Silva Rosa, mãe de Ryan, disse que o filho queria morrer para reencontrar o pai. “Todo dia eu tenho que explicar. Todo dia eles perguntam do pai. Esses dias meu filho mais novo falou: ‘Mamãe, eu quero morrer’. Aí, eu desviei o olhar, tentei conversar de outra coisa para ver se ele se distraía. E ele repetia: ‘Mamãe, olha para mim, eu quero morrer, e tem que ser agora, porque eu quero ver meu pai’. ‘Filho, a gente não pode antecipar isso, Deus vai preparar nossa hora e um dia a gente vai rever o papai, mas, por enquanto, a gente vai ter que caminhar’”.

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