A Dosimetria da Esperteza (por Luiz Paulo Vellozo Lucas)

Dílson Funaro era o presidente do BNDES escolhido por Tancredo Neves. Industrial paulista do setor de brinquedos fazia um contraponto heterodoxo e desenvolvimentista a Francisco Dornelles no Ministério da Fazenda, um economista ortodoxo   experiente no setor público, inclusive como Secretário da Receita Federal no governo militar. Sarney governou o primeiro ano inteiro (1985) com a equipe montada por Tancredo.

Em fevereiro de 1986, Sarney convocou Funaro para o Ministério da Fazenda no lugar de Dornelles, afim de adotar uma estratégia não ortodoxa e gradualista de combate a inflação. Os economistas Pérsio Arida e André Lara Resende, da PUC-RJ, haviam publicado um trabalho conjunto em 1984, que ficou conhecido como  Plano Larida. O eixo central da proposta era trocar a moeda para eliminar a “inflação inercial” causada pelos complexos esquemas de indexação existentes no Brasil.

Funaro montou sua equipe principalmente com a turma da PUC-RJ e também contou com economistas da Unicamp e UFRJ, ligados historicamente `a oposição ao regime militar e de orientação heterodoxa como Luiz Gonzaga Belluzzo, João Manoel Cardoso de Mello e Aloisio Teixeira. O Plano Cruzado, lançado em fevereiro de 1986, substituiu o Cruzeiro pelo Cruzado (mil por um) decretou um  congelamento de preços e salários com um gatilho salarial automático de 20%. O Plano  foi muito popular nos primeiros meses mas os desacertos de preços relativos levaram o governo a usar e abusar das intervenções nos mercados, criminalizando o setor produtivo e o comércio, enfrentando com repressão policial o desabastecimento e o ágio. O PMDB, principal partido do governo, ganhou de lavada as eleições de 1986. O governo Sarney, logo seguida foi forçado a corrigir tarifas públicas causando enorme frustração popular. Foi a primeira vez que se falou em estelionato eleitoral no Brasil.

Ainda no governo Sarney, outros dois ministros da fazenda, Luís Carlos Bresser Pereira e Maílson da Nóbrega lideraram planos de estabilização monetária com congelamento de preços que também fracassaram.

Apesar do sucesso na complexa transição democrática, do extraordinário legado da Constituição Federal de 1988, o governo Sarney chegou nas eleições diretas de 1989 caindo aos pedaços em matéria de popularidade. Nenhum dos candidatos a presidente saiu em sua defesa. O senhor diretas, Ulisses Guimarães teve 4,43% dos votos no primeiro turno e Collor de Mello que ganhou no segundo turno, assumiu a presidência  e fez mais dois planos de estabilização com congelamento de preços, igualmente fracassados até seu impeachment em setembro de1992.

O vice presidente Itamar Franco tomou posse e tentou passar ao largo da questão nacional mais importante: a hiperinflação. Colocou Gustavo Krause e Dorothea Werneck na Fazenda e os demitiu por estarem estudando um plano de estabilização com âncora cambial. Nomeou Paulo Haddad, economista mineiro desenvolvimentista, e o demitiu pela mesma razão. Chamou então Eliseu Rezende, também mineiro e ex-ministro no governo militar para a pasta da Fazenda. Ele não queria saber de cuidar da hiperinflação pois era  um engenheiro fazedor de obras,  que acabou caindo por intrigas entre grandes empreiteiras. Convencido enfim, que não tinha mais como fugir do maior problema do país, Itamar  Franco chamou Fernando Henrique Cardoso que aceitou o desafio de assumir o Ministério da Fazenda para liderar um novo plano de estabilização em meio a descrença geral e o cansaço cívico de quase dez anos de fracassos.

O governo Lula 3 vai mal e todos sabem disso mas recuperar popularidade depende principalmente de fazer o governo trabalhar em cima dos principais problemas do país. Recuperar a previsibilidade da economia com uma estratégia fiscal crível; construir uma solução pactuada para a disputa política pelo dinheiro público no orçamento de investimento; implantar o SUSP- Sistema Único de Segurança Pública de forma negociada com os governos subnacionais; liderar o debate sobre uma reforma do sistema politico eleitoral com o voto distrital misto são alguns dos temas centrais.  Empurra-los com a barriga cobra um alto preço.

Não é preciso deixar de ser pragmático e almejar resultados eleitorais para cuidar do interesse público, ao contrário. Nossa história mostra que, quando se está no governo o único caminho seguro para construir popularidade e ganhar eleições é cuidar do interesse público com coragem e competência.

A esperteza ajuda até certo ponto. Quando é demais engole o esperto.

 

* Engenheiro de Produção. Mestrado em Desenvolvimento Sustentável. Ex-prefeito de Vitória-ES. Membro da ABQ-Academia Brasileira da Qualidade

 

Adicionar aos favoritos o Link permanente.