Demoliram a caixa d’água de Lucio Costa e ficou por isso mesmo

Lucio Costa, o moderno, tinha um castelo que ele projetou com o esmero lúdico de sempre. Um castelo d’água. Era tão somente uma caixa d’água revestida com cobogó feito de tijolinho, única obra de Lucio Costa na Barra da Tijuca, bairro que nasceu de um estudo original do
arquiteto – texto, aliás, tão ou mais literariamente belo que o texto do Plano Piloto de Brasília.

Amargurado com o contínuo e incontrolável desvirtuamento do projeto da Barra, Lucio tinha saudades do castelinho pendurado no ar: “Fora o mar e a paisagem, o que me dá prazer de olhar é a minha caixa d’água da Sudebar”, ele escreveu em Registro de uma Vivência, sua autobiografia. (Sudebar é a antiga Superintendência de Desenvolvimento da Barra da Tijuca).

Esse foi mais um modo lírico de o arquiteto demarcar a sua tristeza. A caixa d’água tinha sido construída na década de 1970, na lateral das pequenas edificações que compõem o que é hoje a Subprefeitura da Barra da Tijuca, na Avenida Ayrton Senna, no Rio de Janeiro. Foi  demolida em 2024, sete anos antes de o arquiteto Hugo Hamann propor ao Conselho do IRPH (Instituto Rio Patrimônio da Humanidade) o tombamento da caixa d’água. Hamann sugeriu também a construção de um pequeno largo circundante para destacar a obra de Lucio Costa do conjunto de edificações ao redor. Ninguém lhe deu ouvidos.

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Caixa d'água

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Terreno onde ficava caixa d’água

Conceição Freitas/Metrópoles

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Caixa d’água

Retirada do livro Registro de uma Vivência, de Lucio Costa

Hugo Hamann tem guardado o risco original da caixa d’água. O arquiteto trabalhou ao lado de Lucio Costa no desenvolvimento do projeto da Barra da Tijuca, entre os anos 1970 e 1980. O castelo d’água, descreve Hamann, “é um projeto muito simples, em concreto aparente, com entorno de tijolos furados naturais”. Depois foram pintados e repintados – de vermelho, de branco, de azul. “Um projeto técnico, funcional, de fácil execução, com materiais simples, elegante, solto, num gramado ainda sem construção nos fundos, com pés de manacá ao lado e de jiboias (espécie de trepadeira) subindo pelos pilares, integrando assim construção e natureza”.

O castelinho de água de Lucio Costa foi derrubado porque, segundo a Assessoria de Imprensa da Subprefeitura da Barra da Tijuca, “apresentava risco de colapso estrutural”. Foi demolido “para garantir a segurança das edificações vizinhas e dos pedestres”. Sete anos antes, vale repetir, Hugo Hamann havia proposto, em vão, o tombamento do castelo de Lucio Costa.

O castelinho de água, circundado por manacás e plantas trepadeiras, era em si mesmo um monumento afetivo da arquitetura moderna brasileira. A pele de cobogó era uma homenagem à adaptação brasileira dos antigos muxarabis árabes: elementos vazados que trazem luz e
ventilação, que hoje se espalham pelo Brasil – nas construções mais sofisticadas até as populares.

A historinha já é bem conhecida: o nome, quase uma onomatopeia do objeto, derivou das silabas iniciais dos seus criadores, um acrônimo: Amadeu Oliveira Coimbra, Ernest August Boeckmann e Antônio de Goís. CoBoGo. O estranhamento com a palavra incomum, cobogó, resultou em variações bem brasileiras: combobó, combogó, comogó, comongol, comogol, comungó. Tanta riqueza foi reduzida a pó na Barra da Tijuca, um dos bairros mais ricos do país.

* Este texto representa as opiniões e ideias do autor.

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