Mulheres, jovens, negros e pentecostais revelam insatisfação com a democracia brasileira, mostra pesquisa

 

Dados levantados pelo Instituto Datafolha para a pesquisa “Religião, Política e Valores dos Brasileiros: entre Extremismos e Mediações”, coordenada por nós dois no âmbito do LePar/UFF (Laboratório de Estudos Sócio Antropológicos em Política, Arte e Religião) mostram que os brasileiros valorizam mais a democracia do que uma ditadura como modo de governo.

Segundo a amostra realizada mediante pesquisa domiciliar com 1.500 pessoas em todo o país, quase 79% dos entrevistados disseram que a democracia “é sempre melhor que qualquer outra forma de governo” sendo somente 13% aqueles que acham uma ditadura melhor do que a democracia em algumas situações.

No entanto, isso não mascara a insatisfação com o “estado de coisas” visto que 71% dos brasileiros se dizem insatisfeitos com a democracia brasileira. Em outros países do mundo, a forte insatisfação com a piora na qualidade de vida acaba sendo associada à democracia, já que esse é o regime predominante na maioria das nações.

Diferentemente de outras democracias, a brasileira sempre foi vista como estando “sob ameaça”, oscilando em um movimento pendular, nos termos do cientista político Leonardo Avritzer. As mulheres brasileiras apresentam um nível mais alto de insatisfação com a democracia (76%) em contraposição aos homens (68%).

Entre os grupos etários, os jovens (de 16 a 24 anos) são também os mais insatisfeitos com a democracia (77%), possivelmente por estarem mais expostos ao sentimento de ameaça (questão climática, violência urbana, perspectiva de empregabilidade, renda e guerras futuras que ameaçam a existência global), assim como as mulheres.

Levando em consideração a questão racial, temos que os autodeclarados pretos são os mais insatisfeitos com a democracia (75%), assim como os que recebem entre 2 e 3 salários mínimos.

No caso dos jovens, das mulheres, das pessoas pretas e das camadas sociais mais baixas, observamos que são eles os menos satisfeitos com a democracia em vista de serem os mais impactados pelas questões políticas, sociais e pelas ameaças locais (como violência) e globais (guerras e falta de perspectivas de futuro).

Já no quesito religião, o grupo mais insatisfeito com a democracia é o dos evangélicos pentecostais (80%). Para compreender essa diferença, é fundamental considerar que este segmento religioso é majoritariamente jovem, feminino e negro.

Somado a isso, pesa também a percepção sobre as ameaças aos valores que consideram fundamentais, como a família tradicional, os papéis de gênero e a fraternidade, que identificam como sob ameaça pela democracia liberal.

Identificar esses sentimentos e anseios é essencial para compreendermos a dinâmica de nossa sociedade e para a produção de políticas públicas eficazes.

Fonte: Folha de S.Paulo

 

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