Mentira tem perna curta e duas caras

A mentira goza de má fama, não é bem vista, nem bem quista por ninguém. O mentiroso, então, está fora de questão, há adjetivos mais pesados, claro, mas este já joga o cidadão numa vala, nivelando-o por baixo junto às coisas mais indignas, tão baixo que seu nariz nem precisa crescer tanto para chegar ao chão. Para a sociedade funcionar, para suas engrenagens moverem-se, é preciso mesmo que exista alguma confiança no outro (ainda que um tantinho de mentira seja necessária às vezes – somos complexos).

Ariano Suassuna, com seu maravilhoso senso de humor, joga uma luz diferente sobre essa figura. Em algumas de suas entrevistas, identifica-se com seu ilustre personagem mentiroso, Chicó, reconhecendo-se enquanto contador de história, um tipo de “mentiroso oficial”.

O que de fato é. Há qualquer coisa interessante em se observar a sutil diferença entre uma mentira e uma boa história. Deixados claros os termos, o ouvinte pode desfrutar de uma história sem o risco de estar sendo ludibriado – ou, à sua vontade, podendo permitir-se ser ludibriado, envolvendo-se na história. Funciona semelhante a um pacto em que a honestidade possibilita o desenvolvimento lícito da mentira. Como acontece em toda ficção, como não aconteceu no caso da grávida de Taubaté e em outros casos explorados pela TV, num “vale tudo” pela audiência.

Já em se tratando de “Vale Tudo”, o remake que estreou na última segunda-feira, aliás, temos mais de um exemplar de mentiroso. Há Ivan que após ser demitido no primeiro dia, não quer entristecer a família e há Maria de Fátima, a filha mau caráter de Raquel Accioli, que deixou a mãe sem teto e mente hora sim, hora também. O curioso neste último caso é que, com alguma frequência, a personagem tenta converter suas mentiras em realidade. Conversa realmente com o “seu contato na alfândega” (seu avô), hospeda-se de verdade no Copacabana Palace para fazer média e impressionar o homem que pode abrir algumas portas para ela. Sinal da sua imaturidade ou é realmente menos esperta do que julga ser?

Voltando aos personagens do Auto da Compadecida, Ariano aponta Chicó como mentiroso. João Grilo, no entanto, é o quê? A dupla querida representa também as duas possibilidades da mentira que já abordamos. Enquanto o Grilo mente para obter vantagem, engana para sobreviver, Chicó mente por hobby, sequer se emenda e, ao menor confronto, só sabe que foi assim. As mentiras de ambos são apreciadas porque julgamos distinguir corações bons e fins relativamente justos. Maria de Fátima, no entanto, não tem o mesmo apoio, por mais ingênua que possa ser ou por mais chata que seja a personagem de sua mãe. 

No fim, concluímos que mentiras podem gerar boas histórias, boas histórias podem sustentar mentirosos e já está bom de continuações e remakes.

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