Facção que trafica venezuelanas criou cemitério de mulheres no Brasil

São Paulo — A organização criminosa venezuelana Tren de Aragua conta com um sofisticado esquema de tráfico de mulheres. O grupo de marginais aproveitou o caos social e econômico, vivido até a atualidade na Venezuela, para expandir sua área de atuação, atravessando a fronteira brasileira com Roraima, seguindo os passos de compatriotas, sem vínculo com o mundo do crime, que fugiram e fogem do país.

A principal atividade do Tren de Aragua no Brasil é o tráfico de armas — vendidas, principalmente, para as facções Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV), com as quais se aliou. O grupo também mantem pontos de vendas de drogas em Boa Vista (RR) e, fora do estado da região Norte, viabiliza o transporte seguro de cargas, em território venezuelano, também para as facções brasileiras.

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Ações policiais nos EUA contra grupo parceiro de negócios do PCC

Policiais conduzem suposto membro do Tren de Arágua
Governo de El Salvador fechou acordo com EUA para trancafiar supostos membros de grupos criminosos
Guarda observa supostos membros de facção
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Guarda observa supostos membros de facção

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Ações policiais nos EUA contra grupo parceiro de negócios do PCC

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Policiais conduzem suposto membro do Tren de Arágua

Secretaria de Prensa de la Presidencia de El Salvador

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Governo de El Salvador fechou acordo com EUA para trancafiar supostos membros de grupos criminosos

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Condução de suposto integrante da Tren de Aragua

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Presos apontados pelos EUA por pertencer à Tren de Aragua

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Preso apontados pelos EUA por pertencer à Tren de Aragua é conduzido por guardas

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Além disso, a “banda”, como a quadrilha é chamada no mundo do crime na Venezuela, também explora as vítimas da pobreza e da falta de perspectiva de futuro, resultantes do colapso econômico e do caos social reinantes no país vizinho governado por Nicolás Maduro.

“A preponderância dos alvos são venezuelanas, que passam fome. Os criminosos falam para virem ao Brasil, onde terão condições melhores de vida e, por fim, são exploradas pelo Tren de Aragua, que controla casas de prostituição, onde cobram taxas das vítimas”, explicou, em entrevista ao Metrópoles, o delegado Wesley Costa Oliveira, titular da Delegacia de Repressão às Organizações Criminosas (Draco) de Roraima.

Dívida e morte

Em decorrência da vida difícil, algumas das vítimas acabam se viciando em drogas, aumentando ainda mais a dívida com os criminosos venezuelanos.

“Mas, em alguns casos, a conta não fecha e as mulheres são mortas, para dar exemplo para outras”, acrescentou o policial.

Na véspera do Natal do ano passado, a Polícia Civil de Roraima localizou um cemitério clandestino do Tren de Aragua, em Boa Vista, no qual foram encontrados 10 corpos. Entre eles, segundo o titular da Draco, havia cinco mulheres, cujos cadáveres estavam com indícios de desmembramentos, da mesma forma que as outras vítimas enterradas.

“O Tren de Aragua age de forma extremamente violenta, com requintes de crueldade, arrancando cabeça, membros, para assustar as pessoas. O objetivo deles é causar o terror”.

Há a suspeita de que grande parte das vítimas é desmembrada ainda com vida. As sessões de tortura, seguidas dos homicídios, são registradas em vídeos, posteriormente compartilhados para “dar o recado” aos que, eventualmente, pretendam se indispor com os criminosos venezuelanos. Esse método é muito utilizado pelos cartéis mexicanos, com os quais o Tren de Aragua também mantém contato, como mostram investigações internacionais.

O bando criminoso, atualmente o maior da Venezuela, foi classificado como “inimigo de guerra” pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

Além de matar por dívidas, o Tren de Aragua também assassina pessoas das quais desconfia terem vazado informações às autoridades.

Os criminosos não poupam nem crianças, como aconteceu com uma garotinha que sobreviveu após ser atingida por três tiros, em maio de 2023, quando o bando venezuelano assassinou dois homens, dos quais um foi  identificado somente como “Diablito”.

“Enamoramiento”

Investigações internacionais ilustram as formas usadas pelo grupo criminoso venezuelano para ludibriar e explorar sexualmente suas vítimas.

Uma delas começa on-line, por meio de mensagens, com a oferta de falsos trabalhos em outros países. Além da Venezuela, o Tren de Aragua também coopta mulheres de Chile, Colombia e Peru.

Para dar credibilidade às abordagens, a organização criminosa obriga vítimas — já subjugadas — a mentirem aos novos alvos, para os quais relatam as “vantagens” de se trabalhar em outro país.

Outro método usado pelos venezuelanos é conhecido como “enamoramiento” (apaixonar-se), por meio do qual um membro do Tren de Aragua conquista a vítima.

Dívida e exploração

Quando a mulher é convencida a se mudar para outro país — inclusive o Brasil –, acreditando que terá um novo emprego, ou um novo amor, o Tren de Aragua custeia o transporte e acomodação — método que se assemelha ao usado por outras organizações de contrabando humano.

Além disso, a documentação necessária e toda logística para a viagem é feita por meio de um “assessor”, reforçando uma falsa sensação de segurança e credibilidade. As vítimas, então, viajam com a crença que irão mudar de vida, para a melhor, até que se veem nas garras do Tren de Aragua.

Elas são cobradas por todo o serviço oferecido para a viagem, pelo qual não podem pagar. A dívida então cresce, pelo fato de as vítimas precisarem se manter no local para o qual foram levadas. Para saldar o débito, elas se prostituem da forma “tradicional” — na rua ou em boates controladas pelo Tren de Aragua — ou ainda por meio de sites e de pornografia ao vivo, via salas virtuais.

A Polícia Civil de Roraima já identificou algumas formas de ação do grupo e, até o momento, sabe sobre a presença de importantes lideranças na região. Mais detalhes não foram dados, porque as investigações estão em andamento.

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